Pelo prisma do amor: Se permitir sonhar é o verdadeiro romance

Sob o traço do WIT STUDIO e a narrativa de Yoko Kamio, o novo anime da Netflix supera os clichês do gênero ao pintar um retrato sensível sobre as dores e os encantos da vida artística

A Netflix divulgou Pelo Prisma do Amor, anime que estreou na plataforma em 15 de janeiro de 2026 e que chama atenção principalmente por sua criadora: Yoko Kamio, autora do clássico mangá Boys Over Flowers (Hana Yori Dango). A série apresenta um drama de 20 episódios ambientado na Londres do início do século XX, focado em Lili Ichijoin, uma jovem japonesa expressada pela voz de Atsumi Tanezaki (a Anya de SPY x FAMILY). Lili sonha em se tornar uma grande pintora e, para isso, se muda para a prestigiada academia de artes Saint Thomas, sob uma promessa ousada aos pais: se não conquistar o primeiro lugar da escola em seis meses, desistirá dos estudos e voltará para sua cidade natal para se casar. 

No novo ambiente, ela logo se envolve em uma rivalidade com Kit Church, herdeiro da aristocracia inglesa e considerado um gênio da pintura, cuja determinação da jovem passa a atrair, abrindo caminho para o romance. Visualmente, a produção do WIT STUDIO é um espetáculo à parte, onde a direção de Kazuto Nakazawa garante que as emoções cheguem com força total, perfeitamente embaladas pela trilha sonora sensível de Naoki “naotyu-” Chiba.

Para quem conhece a produção anterior de Yoko Kamio, o paralelo com Boys Over Flowers — marco dos doramas lançado em 2009 — é inevitável. Aquela clássica história da "Cinderela" mostrava uma estudante pobre bolsista enfrentando um grupo de quatro garotos ricos e mimados (o F4), acabando por se envolver em um romance conturbado com o líder da elite escolar. Em Pelo Prisma do Amor, Kamio assina os roteiros em parceria com Tetsuya Takahashi e Saki Fujii, trazendo novamente uma mente afiada para criar aquela pegada de romance intenso e personagens que ficam na memória, mas agora transportados para a atmosfera charmosa e os detalhes delicados do dia a dia de uma academia de arte do século XX.

Confesso que a história começa dando indícios de que vai ser mais um Shoujo bestinha, com a protagonista descobrindo que o menino desleixado e mau educado que ela encontrou por acaso era na verdade o cara mais popular da escola. Temos antagonistas logo no primeiro episódio fazendo bullying com a Lili por ciúmes da sua aproximação com o cara popular, e a clássica melhor amiga excêntrica que ela encontra na escola. A partir daí quem não sabe o roteiro? Eles vão passar a temporada inteira se implicando e descobrir lentamente que se gostam, e óbvio, bem depois de todo mundo ao redor. O que acontece, mas com um aprofundamento nos personagens em geral que surpreende. O desenvolvimento romântico dos protagonistas é deixado de escanteio pelo roteiro e pelos próprios personagens, que estão focados em desenvolver suas habilidades artísticas, lidar com a vida adulta e a carga emocional que só quem já escolheu ou sonhou em viver da arte conhece.

Para o público fã de shoujos em geral, é uma boa escolha por sair dos moldes tradicionais, mas para artistas de coração, é uma viagem onde você vai rir e sofrer junto dos personagens. O anime aborda vários tipos de relação com a arte sob recortes sócio históricos e psicológicos. Tem personagens que não conseguiriam viver de outra coisa e vão fazer de tudo para conseguir, mesmo que se prejudiquem no final, os que queriam viver somente da arte mas lidam com barreiras de autoconfiança, financeiras e de responsabilidades maiores, os que nunca precisaram viver de outro modo e os que fazem o que fazem apenas por prazer. Como essas relações dos artistas com a arte e com os outros artistas vão acontecer, como esses tipos de sonhos podem ser motivados ou abalados e como no final ninguém consegue realmente ter total controle sobre o curso da vida, são estratégias de roteiro que fazem a experiência ser fascinante. E a torcida pelo pedido de namoro dá lugar à torcida por oportunidades para esses corações se inflamarem em um mundo frio que precisa do calor da arte, mas funciona como uma máquina de moer a sensibilidade.

Resenha produzida na disciplina de PTJ 3, por: Ana Júlia Mendes

Categorias: resenha crítica anime 1Opinativo