Penso nelas todos os dias

Por Ana Luiza Póvoa

 

Hoje eu acordei, escolhi a roupa que queria vestir e saí de casa. Completamente sozinha, sem precisar que um homem me acompanhe. Peguei um livro na bolsa, escolhi que música ia escutar, respondi mensagens, reclamei do clima com um amigo na faculdade e pensei no
que faria depois da aula. Um dia comum. Tão comum que quase passa despercebido.

Mas existe uma parte de mim que nunca consegue viver um dia comum por completo. Em algum momento, sempre me lembro delas. 

Não sei exatamente quando esse pensamento começou a me perseguir. Talvez tenha sido depois da reportagem sobre as mulheres afegãs terem sido proibidas de falar em público, ou pode ter sido depois de uma fotografia, de uma menina escondendo os cadernos, de uma mulher que perdeu até o direito de mostrar o próprio rosto. Desde então, elas aparecem nos meus pensamentos como quem bate à porta sem fazer barulho.

E eu continuo andando. Continuo estudando. Continuo escrevendo, afinal sou uma jornalista quase formada. Continuo votando. Continuo falando. Tudo aquilo que faço sem precisar pedir permissão. Sei que deve existir uma jovem de 21 anos, que tem os mesmos desejos, escreve tão bem quanto eu e que amaria ler o que eu leio, mas que, nessemomento, não tem direito a fazer isso.

Às vezes sinto culpa por chamar de rotina aquilo que, para tantas mulheres, seria um sonho distante. Eu reclamo de trabalhos da faculdade enquanto outras dariam qualquer coisa para simplesmente entrar em uma sala de aula. Eu decidi qual profissão seguir enquanto outras não podem sequer decidir sobre a própria vida.

Existe um privilégio silencioso na liberdade. Ela é tão cotidiana que só percebemos seu tamanho quando olhamos para quem foi privada dela. Eu nunca conheci uma mulher afegã. Talvez nunca conheça. Ainda assim, penso nelas quase todos os dias.

Penso nas meninas que nasceram e já tiveram seus direitos privados. Nas mulheres cuja voz passou a ser considerada inconveniente. Nas que precisam aprender que existir, às vezes, já é um ato de resistência. E então volto para a minha realidade. Abro o computador. Escrevo mais uma página. Dou minha opinião. Faço planos para o futuro. Percebo que todas essas pequenas ações carregam um peso que eu raramente noto: elas só são possíveis porque alguém, em algum momento da história, lutou para que mulheres como eu pudessem fazê-las.

Talvez seja por isso que elas nunca saiam dos meus pensamentos. Porque toda vez que exerço um direito, lembro que ele ainda não pertence a todas nós. E enquanto houver uma mulher impedida de aprender, de escolher, de falar ou simplesmente de viver, nenhuma liberdade será completamente individual.

No fim das contas, penso que a distância entre nós não se mede em quilômetros. Mede-se em direitos. E essa talvez seja a maior injustiça de todas, nascer mulher nunca deveria significar destinos tão diferentes apenas por causa do lugar onde se nasceu

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