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“Emergência radioativa” e sua falta de respeito pelas vítimas do Césio-137

39 anos após o acidente, Goiânia segue carregando o estigma da radioatividade

Chegando ao Top 1 global de séries de língua não inglesa da Netflix na sua segunda semana de lançamento, a série “Emergência Radioativa” parece ter agradado a muitos, mas não à cidade na qual ela deveria representar. Veja bem, a série se baseia no maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, o Césio-137, em Goiânia. Mas, por que a série foi gravada majoritariamente em cidades como Osasco e Santo André, ambas no Estado de São Paulo, e não na cidade em que o acidente aconteceu?

Deve ser porque os diretores Gustavo Lipsztein e Fernando Coimbra, ambos homens, sudestinos e brancos, achassem que não seria de grande impacto retratar por dentro como o Césio gerou traumas nos goianienses. Ou talvez porque o ator principal da série, Johnny Massaro, que interpreta um cientista, pensou que tudo isso não passasse de uma história inventada quando foi fazer seu teste. Mas segundo a Netflix, São Paulo e Goiânia devem ser quase a mesma coisa, já que em uma divulgação da série afirma que ela carrega do DNA brasileiro: “contadas por brasileiros, para brasileiros”. Devem ter se esquecido das marcas regionais que nosso país carrega.

Utilizaram a desculpa de que a cidade não tinha condições de receber a equipe de filmagem, mas nem a decência de escolherem atores goianos tiveram. O teste de elenco foi realizado em cidades no interior de São Paulo. E nada contra os moradores de Itapetinga selecionados para participar do casting, mas em Goiânia ou em Goiás não temos atores que não precisam forçar nosso sotaque? Sei que para eles foi uma festa ver a série tomando proporção com suas participações, mas existem pessoas reais que sentiram, literalmente, na pele, o que foi conhecer esse pó azul de perto.

Outra revolta gerada na população foi que nem a Associação das Vítimas do Césio-137 foi ouvida no processo de construção da obra. A família negra que, infelizmente, protagonizou essa história teve seus nomes apagados, com pessoas reais sendo “condensadas” em personagens únicas. Em contrapartida, até o som emitido pelo aparelho que detecta radioatividade foi escutado, que, segundo o diretor, “era um som agonizante mas que precisava ser fiel à realidade”.

Não sei para o Gustavo, mas eu, que moro a menos de 200 metros do caixão de concreto que carrega os restos mortais de Leide das Neves, a criança que foi o maior rosto dessa tragédia, não penso assim. Para mim, o que precisava ser fiel à realidade é a representação da cidade da menina Leide, em que sua mãe pudesse falar como ela se sente 39 anos depois de perder sua filha, e que pudessem mostrar onde ela brincava, vivia. Essa sim seria uma realidade agonizante, mas fiel ao que de fato aconteceu.

A importância de se retratar uma série, por mais que ficcional, na cidade onde ocorreu o fato retratado é mais que preservação histórica. É proporcionar que pessoas que viveram na pele o medo de morrer por conta da radioatividade em 1987 sintam que estão sendo representadas. É recontar através do lote baldio onde era o ferro velho e hoje serve de estacionamento que aquele local foi o marco zero de uma tragédia que até hoje deixa cicatrizes nos goianienses. Tudo isso aconteceu no Centro de Goiânia, um dos bairros mais movimentados da cidade e que até hoje preserva sua arquitetura art dêco. É contar a história de uma mulher que conseguiu chamar a atenção das autoridades em meio a uma emergência sanitária que ninguém sabia a causa. É lembrar a curta infância de Leide das Neves na cidade em que ela não teve a oportunidade de crescer. É respeito pelas vidas perdidas. É memória. É lembrança.

 

Por Andressa Bueno

Categorie: Artigo de Opinião Opinativo