Itamar Assumpção em “Beleléu, Leléu, Eu”: afrofuturismo e posteridade
Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito. Nunca maldito. Indigesto.
Francisco José Itamar de Assumpção partiu há 22 anos, com apenas 53 anos de
idade. Bisneto de escravizados angolanos, suas principais referências musicais se
encontravam nos batuques do terreiro de candomblé, no quintal de casa, e nas
distorções psicodélicas e alucinógenas da guitarra elétrica de Jimi Hendrix. Essa fusão
excêntrica certamente influenciou o que se tornaria sua música anos depois: uma
complexa mistura groovante do rock, reggae, samba, funk e jazz. O gênero indefinível
e o estilo de sua sonoridade não são à toa: perpassam a desritmidade, a malandragem
e a unicidade do Vanguardismo Paulistano dos anos 70 e 80 no Brasil, mas não se
restringem às suas barreiras; se expandem até o limite do surrealismo poétic
Nascido em Tietê, interior de São Paulo, Itamar se mudou para o Paraná durante a
adolescência, onde integrou o Grupo de Teatro de Arapongas, em Londrina. Apesar de
uma resistência inicial, a incorporação do teatro em suas músicas e shows tornou-se
inegociável, os elevando a nível de espetáculo. O maior exemplo dessa fusão de
linguagens, estilos e ritmos está em seu disco de estreia “Beleléu, Leléu, Eu”,
acompanhado pela banda Isca de Polícia, lançado em 1980 de maneira independente.
Origem de grandes sucessos do artista como “Nego Dito” e “Fico Louco”, o álbum
reúne toda a dramaticidade da trajetória de Itamar com o coro das vocalistas da Isca
de Polícia, tambores, pianos, contrabaixos, batuques, distorções elétricas e uma
essência característica do artista, que mantém uma certa fidedignidade ao lúdico e à
fantasia, ao mesmo tempo em que conversa com o cenário urbano de São Paulo.
Acredito que comparar a essência de “Beleléu, Leléu, Eu" ao surrealismo de “Castelo
Rá-Tim-Bum” não seja exagero. São mundos com invenções particulares e totalmente
próprias, que fazem todo o sentido em conjunto e, justamente por isso, consagram a
obra como tão única e transgressora, ditadora das próprias regras.
Descrever “Fico Louco”, por exemplo, como uma música que mistura reggae e rock,
marcada por um baixo elétrico, percussão, bateria, guitarras e um coro vocal, parece
não ser suficiente diante do produto final, principalmente por se tratar de um tipo de
música transgressora o suficiente para não ser classificada ao lado de outros grandes
sucessos da década de 70 e 80 no Brasil. E o próprio Itamar reconhecia a inovação e
transgressão em sua música, recusando-se, inclusive, a ser classificado como um dos
“Malditos da MPB”, artistas brasileiros experimentalistas que rejeitavam as convenções
mercadológicas. Não por não admirá-los, mas por simplesmente reconhecer seu
trabalho como algo único e inigualável.
“Beleléu, Leléu, Eu" é um dos grandes tesouros deixados por um dos artistas mais
ousados da música brasileira, não apenas pelo seu som, mas pela sua própria forma
de expressão no mundo. O álbum traz uma riqueza estética baseada no desafio às
convenções sonoras, parte devido às baixas condições de gravação da época, além
de críticas ainda muito atuais ao racismo e à violência policial. O próprio nome da
banda Isca de Polícia, criada para acompanhar Itamar Assumpção em shows, foi
inspirado na constante perseguição do artista, inclusive já detido pela polícia por estar
portando um gravador, presumidamente roubado.
Itamar, entretanto, permanecia ousado, extravagante e fiel à crença na qualidade de
seu trabalho. Através do álbum, pôs no mundo seu postulado, principalmente através
da estética, que o futuro possui a ancestralidade africana e suas raízes como
protagonistas e livres de quaisquer denominações ou classificações pré-determinadas.
Assim como destacado no documentário “Daquele Instante em Diante”, biografia do
artista, “alguém tão comprometido com o novo estava destinado a ser póstumo”.

