FIC por Dentro. Produções laboratoriais de jornalismo.

Vitória Régia: uma ficção distópica, que também parece ser utópica

Curta que retrata o que seria do Brasil depois do 8 de janeiro busca trazer respostas, mas
falha na realidade

"Vitória Régia" apresenta uma ficção distópica, mas que quase foi um documentário. O que teria acontecido com o Brasil se o 8 de janeiro de 2023 tivesse tido sucesso? É essa pergunta que o curta tenta responder, trazendo como protagonista povos indígenas e a exploração da Amazônia. Criado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a G9, aliança de organizações indígenas de nove países (incluindo Brasil, Peru e Colômbia), o curta tem direção do cineasta brasileiro Denis Kamioka e roteiro da jornalista Carol Pires (Democracia em Vertigem).

Nos 24 minutos de curta, disponibilizado gratuitamente no seu site e no YouTube da Coiab, acompanhamos Carolina, jornalista interpretada por Alice Braga e que trabalha no Correio de São Paulo. Ela recebe um visto único: a entrada na Amazon of America, uma empresa norte-americana que assumiu o controle da Amazônia e que explora petróleo no território após o golpe de estado. A primeira cena de Carolina nessa jornada, ainda sobrevoando a "floresta" (que nem é mais tão floresta assim), parece ser muito real. Aparece a construção de uma estátua da liberdade no meio de árvores imensas, assemelhando-se a uma construção de mais uma filial da Havan em qualquer cidade brasileira.

O curta vai mostrar que a resistência indígena é capaz de mobilização, articulando uma linguagem de guerrilha, em que a preservação da floresta e da terra é soberania nacional. Vitória Régia é o nome dessa resistência, onde Carolina vai parar depois que a empresa é tomada por um levante durante sua visita. Vitória Régia é uma união de povos no meio da devastação e que usam máscaras porque "se escondem para serem vistos". Há dois principais destaques no curta: a liderança feminina e a militarização.

Apesar do contexto desenvolvido, surgiram alguns incômodos. Mesmo sendo um curta, os personagens são muito planos, quase caricatos. Carol é a jornalista que busca ir contra a maré no meio de uma ditadura. Outro questionamento é se a passeata pacífica, que acontece lá pro final do curta, realmente seria viável em uma situação dessas, em que os indígenas se colocariam na linha de frente e com um bebê no colo, totalmente vulneráveis. Já vivemos
mais de uma ditadura para entender que a repressão seria mais violenta do que nunca, principalmente contra esses povos.

Mesmo com uma ideia muito boa e sendo uma ficção, o curta carece de pés no chão. Não existiriam as matérias que aparecem enquanto Carolina sobe à redação do jornal logo no início do curta para dar o contexto do que aconteceu. Provavelmente ela nem ganharia o visto para ir conhecer a Amazon of America porque o próprio “governo” mandaria um release do que deveria ser publicado. E as caixas com a fita de censura também não passam de um delírio; o que seria mais fácil de fazer do que editar jornais impressos seria derrubar o site do jornal, como aconteceu com o Intercept com o caso Flávio e Vorcaro.

Por fim, o que era para ser uma distopia virou uma quase utopia. Será que os povos indígenas, já tão marginalizados e violentados, seriam uma resistência possível? Se o Brasil hoje estivesse sob uma ditadura, eu tenho a certeza de que uma passeata ao lado de uma empresa tão grande não seria passível de ser realizada, muito menos combatida com apenas escudos de força ou gás lacrimogêneo. Essas pessoas seriam mortas. Essa resistência com placa indicando a localização seria massacrada. Vale o play para pensar, mas não para se ter como a única possibilidade de resistência.

 

Por Andressa Bueno

Categorias: Opinativo resenha