Meu Ano de Descanso e Relaxamento, de Ottessa Moshfegh
Se white people problem fosse um livro, com certeza seria este
Por Ana Luiza Póvoa
Publicado em 2018, Meu Ano de Descanso e Relaxamento, da escritora norte-americana Ottessa Moshfegh, apresenta a história de uma jovem rica,
bonita e privilegiada que decide passar um ano inteiro dormindo. Ambientado em Nova York no ano 2000, o romance acompanha a tentativa da protagonista, cujo nome nunca é revelado, de se afastar completamente da realidade por meio do uso contínuo de medicamentos prescritos por uma psiquiatra extremamente questionável.
Um dos pontos mais fortes da obra, pra mim, é, sem dúvida, a escrita de Moshfegh. A autora constrói uma narrativa marcada por humor ácido, ironia e
observações perspicazes sobre o mundo da arte, da moda e da elite nova-iorquina. As referências culturais enriquecem a leitura e ajudam a compor o retrato de uma personagem profundamente desencantada com a vida. Além disso, a narração em primeira pessoa oferece acesso direto aos pensamentos da protagonista, revelando uma mente contraditória, cruel em alguns momentos e, justamente por isso, bastante humana.
No entanto, apesar da qualidade da escrita, a minha experiência de leitura foi marcada por diversos incômodos. O principal deles está na forma como o uso abusivo de medicamentos controlados é retratado ao longo da narrativa. Não é um gatilho apresentado na sinopse e não está descrito em momento algum nas páginas que antecedem a história. Embora seja compreensível que o livro apresente os acontecimentos sob a perspectiva da protagonista, a banalização do consumo excessivo de remédios chamou muito a minha atenção. A obra descreve com frequência substâncias específicas, seus efeitos e até
quantidades ingeridas pela personagem, tratando comportamentos extremamente preocupantes de maneira quase cotidiana. Para mim, essa abordagem é irresponsável, especialmente considerando que o livro pode ser lido por pessoas vulneráveis ou que enfrentam questões relacionadas à saúde mental.
Outro aspecto problemático é a superficialidade com que alguns temas centrais são desenvolvidos. A protagonista claramente apresenta sinais de depressão
profunda e demonstra não enxergar sentido em continuar vivendo. Entretanto, suas motivações raramente são exploradas com profundidade. A morte dos pais, por exemplo, é mencionada diversas vezes, mas seu impacto emocional no arco da história permanece pouco desenvolvido. O mesmo acontece com
suas relações interpessoais. A amizade com Reva, a pessoa mais próxima que a personagem possui, é marcada por desprezo e hostilidade. Em vez de
despertar empatia, a protagonista frequentemente se mostra esnobe, narcisista e indiferente aos sentimentos dos outros, dificultando a criação de uma
conexão emocional com o leitor. Na maioria das vezes, os comentários pareciam um grande problema de pessoa branca.
Ao longo da narrativa, a personagem afasta justamente as pessoas que tentam ajudá-la. Sua relação com um “ficante” é destrutiva, enquanto sua psiquiatra
parece tão desequilibrada quanto a própria paciente. Em muitos momentos, a impressão é de que o leitor permanece preso dentro da mente de uma
personagem problemática sem que isso conduza a um desenvolvimento significativo. Para além das questões relacionadas à saúde mental, a obra
também apresenta cenas de abuso sexual e outros conteúdos potencialmente sensíveis (transtornos alimentares, automutilação e etc) reforçando a necessidade de atenção por parte dos leitores. Embora esses elementos contribuam para a atmosfera perturbadora da narrativa, eles também intensificam a sensação de desconforto que acompanha a leitura do início ao fim.
Em síntese, Meu Ano de Descanso e Relaxamento é um romance que divide opiniões. É descrito pela própria autora na sinopse como “um romance hilário”
e eu não poderia discordar mais. Não tem nada hilário. A principal qualidade desta leitura está na escrita afiada de Ottessa Moshfegh sobre a sociedade
contemporânea, mas a superficialidade de algumas construções narrativas, a dificuldade de compreender plenamente as motivações da protagonista e a
forma banalizada como temas delicados são abordados comprometem parte da experiência. Trata-se de um livro bem escrito, mas, ao mesmo tempo, raso e desagradável. Permanecer durante tantas páginas na mente de uma personagem tão autocentrada em problemas não explicados foi um desafio. Ainda assim, a força da escrita da autora foi suficiente para me levar até a última página.
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