Volta pra casa, ida pra lugar nenhum
Por Maria Eduarda Silva
No ônibus já vi gente chorando. Já vi gente estressada querendo brigar. Já ouvi
pregações e louvores. Já ouvi músicas das mais absurdas no volume mais alto. Já ouvi
rima. Já comprei amendoim, carregador, escova de dente. Já ouvi criança chorar. Já vi
histórias de amor sendo declaradas por mensagem. Já ouvi adolescentes planejando faltar
aula. Já dormi. Já ouvi brigas pelo celular. Já vi um rapaz tirar uma garrafa de café gigante e
começar a tomar. Já voltei para casa de madrugada com um grupo de jovens fumando e
bebendo dentro do ônibus. Já fumei dentro do ônibus. Já planejei mudar de vida encarando
a janela do ônibus. Já chorei dentro do ônibus. Já li dentro do ônibus. Já terminei uma série
dentro do ônibus.
Toda a vida que existe dentro do ônibus parece roubar um pouco a minha. São 2
horas para ir, 2 ou 2 e meia para voltar. Horas que podiam ser um tempo a mais de sono,
um tempo a mais de estudo, um tempo a mais pra pensar. Porque pensar exige foco e o
mínimo de descanso. Porque ler às vezes é nauseante demais. Porque eu poderia estar
criando outras coisas se estivesse mais disposta, ou menos estressada, ou menos
atrasada. Porque a vida acontece no movimento e não no limbo.
Lá fora a cidade acontece, pessoas caminham, outro ônibus da mesma linha passa
mais vazio que o meu. Lá fora tem o café que fica perto do meu trabalho que eu nunca
consigo ir porque já estou atrasada. Lá fora estão as comemorações, shows, praças,
lanchonetes, cafés, livrarias, bares, que eu não posso ir porque tenho que chegar cedo em
casa e dormir e acordar amanhã de novo. E sábado e domingo os ônibus passam menos. E
o cinema que meus amigos vão fica no centro.
Apesar do barulho, das buzinas, das músicas, dos celulares sem fone de ouvido, na
minha mente acontece um zumbido. Apesar da falta de infraestrutura da cidade, da falta de
mais ônibus, da necessidade de outras linhas, do engarrafamento, do trânsito, não há
espaço pra revolta ou incontentamento. Porque já estou cansada. E é mais fácil fingir que
estou em outro lugar pra ver se o tempo perdido se transforma em alguma história aqui
dentro.
Mas lá fora mulheres e crianças pedem ajuda com um cartaz, todas as manhãs, no
mesmo lugar. Lá fora tem um adolescente vendendo balinha no meio do trânsito. Lá fora
alguém acabou de cair de moto. Lá fora alguém bateu o carro. E aqui, dentro do ônibus,
outras dezenas de pessoas reúnem as mesmas revoltas silenciosas, se distraindo com
fones de ouvido e telas. Uma espiada denuncia alguém jogando nas bets, um rosnado grita
“Vai descer, motorista!”, uma criança chora pedindo atenção da mãe. Aqui, a vida acontece
em pequenas doses.
Enquanto isso, o incômodo pelo preço da carne, pelo trânsito, pelas chuvas, pelas
decisões do Congresso, pelo clima, pelo que for, é amortecido por algumas horas de
inanição. E de repente tudo isso torna-se complicado demais, porque o ônibus já chegou no
terminal e eu e mais alguns corremos pra não perder o próximo.

