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À Meia Noite Levarei Sua Alma

Sublime Transgressão
Coluna por Maria Eduarda Silva
Análises de filmes transgressivos sobre o olhar (amador, de iniciante e amante) da psicanálise

No país de maior população católica do mundo, a transgressão e o terror foram inaugurados
por uma figura de capa preta, unhas gigantescas e dona de um cemitério, em plena década de
60. O diretor José Mojica Marins não apenas confrontou o cristianismo brasileiro em seus
costumes e construção ética, mas subverteu a lógica de humanidade com o perverso e sádico
personagem Zé do Caixão, em “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964), filme por ele
próprio protagonizado.
O agente funerário, temido e marginalizado pela comunidade, age sem escrúpulos em sua
incessante busca pela mulher perfeita, aquela capaz de dar continuidade à sua linhagem, força
motriz que o impulsiona ao longo de toda a trama. Zé do Caixão encarna toda a perversidade
daquilo que preferimos fechar os olhos: mata por conveniência, decepa os dedos de um
adversário em uma discussão de bar, violenta uma mulher pelo único propósito de que ela
conceba seu primogênito ideal.
Sua crueldade, contudo, é alimentada por uma angústia dicotômica: o horror diante da
possibilidade da morte o impele a buscar a imortalidade através de um filho, um ser puro,
inocente e digno de afeição. Essa busca pelo desejo, incessantemente frustrada por suas
próprias ações, revela uma recusa à castração, isto é, à aceitação dos limites, da
impossibilidade e da falta. Zé do Caixão não renuncia a nenhuma vontade, a nenhuma
instituição, a nenhuma norma. Assim como se recusa a deixar de comer carne em uma
Sexta-Feira Santa, também não cede à imposição de procriar exclusivamente com a esposa.
Essa mesma busca, no entanto, revela-se a causa de seu próprio fim: Zé do Caixão é
aniquilado e punido exatamente pelas normas que tanto despreza. A pureza que almejava no
filho, a mesma faltante em si mesmo, mostra-se inalcançável, levando-o ao limite que tanto
procurava fugir.
Twin Peaks: Fire Walk With Me
Através da escuridão do passado futuro
O mágico anseia por ver
Um canto entre dois mundos
O fogo anda comigo
Em uma construção onírica e surreal, David Lynch traz à tona o escuso do subconsciente em
“Twin Peaks: Fire Walk With Me”, de 1992. O filme revela o mal que o espectador buscava
não aceitar durante a construção da narrativa.
Na tentativa de traduzir o intraduzível, resumo em poucas palavras do que trata este sonho: