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Autenticidade construída para as telas: onde está a identidade da geração Z?

Onde está a identidade da geração Z?

A primeira geração nativa digital, a gen Z, apresenta características próprias
relacionadas à presença de tecnologias mediando sua forma de ser e existir no mundo, e a
fragilidade daquilo que se constitui como identidade se apresenta como uma das mais
urgentes entre elas. Em “Identidade” (2005), Bauman discorre que, no contexto em que
chama de “época líquido-moderna”, a identidade não era algo sólido ou fixo, mas líquida,
fragmentada, provisória e em constante negociação. A análise do autor foi desenvolvida em
outro período histórico, em que as relações com a tecnologia não eram tão essenciais para a
vida cotidiana e tão participante na construção de identidade do sujeito; mesmo assim, é
possível pensar através da mesma ótica sugerida por Bauman, ao observar a época
líquido-moderna, em relação à atual forma de se relacionar com as mídias digitais e seu
impacto na construção de identidade e autenticidade, especialmente os jovens da geração Z.
Em uma rápida rolagem por feeds do Twitter e do TikTok, é possível perceber um
claro movimento de tentar se "provar" constantemente como membro de algum nicho.
Aplicativos como Letterboxd e Last.fm registram músicas e filmes consumidos, e
comunidades inteiras surgem a partir de gostos semelhantes. Essa conexão intensa,
entretanto, gera contradições: por um lado, redes e aplicativos ampliam o espaço para
subculturas, nichos e formas alternativas de expressão. Um jovem interessado em música
experimental ou literatura marginal, por exemplo, pode encontrar comunidades anteriormente
inacessíveis. Por outro lado, a necessidade de se identificar com um grupo aparenta ser tão
intensa que o gosto deixa de ser uma experiência íntima para se tornar algo a ser exposto na
vitrine do perfil. Mesmo os conteúdos "nichados" ou "alternativos" passam a obedecer a
padrões claros. Há um catálogo de filmes cult que todo cinéfilo de verdade deve ter assistido,
uma playlist de artistas underground que todo fã de música autêntico precisa conhecer. O
espaço para a experimentação genuína, para um gosto diverso, confuso e até contraditório,
parece não existir.
Os desdobramentos desse processo são inúmeros, sendo possível destacar a
apropriação vazia de estéticas que, originalmente, carregavam forte teor político. Estilos
como punk, gótico, grunge e hippie emergiram como formas de resistência e denúncia social.
Hoje, filtros do TikTok e tendências sazonais resgatam sua aparência sem a espinha dorsal
crítica. Acompanhamos a adoção de “estéticas”, mas sem nenhum tipo de identidade atrelada
a elas. Elas não dizem respeito a uma forma de agir, de ser, de pensar, de se posicionar
politicamente no mundo, mas sim um conjunto de acessórios a serem usados, obedecendo
padrões preestabelecidos.
É possível apontar que o processo de construção de identidade é permeado por uma
necessidade de aprovação, intensificada pelo uso intenso de redes sociais, e geralmente
comum em pessoas mais jovens. Além disso, esse movimento também pode ser apontado
como um desdobramento contemporâneo do que Theodor Adorno e Max Horkheimer, nos
anos 1940, chamaram de indústria cultural. Para os filósofos da Escola de Frankfurt, o
sistema de produção cultural em massa não apenas oferecia entretenimento, mas moldava os
desejos, os gostos e até a própria subjetividade dos indivíduos, transformando tudo em
mercadoria padronizada. Entretanto, é importante destacar que, na conjuntura atual, este
fenômeno é muito mais rápido, descentralizado e volátil. O que antes era uma indústria
cultural com roteiro previsível e produtos de longa duração, deu lugar a um fluxo incessante
de microtendências, estéticas descartáveis e nichos que nascem e morrem em semanas. O
imediatismo das redes sociais não apenas acelera a produção de símbolos, mas também torna
visíveis as próprias tentativas de estetização.

A perda de autenticidade pela geração Z parece ser um problema diretamente
relacionado à hiperconexão, à necessidade de validação a partir de uma realidade
esteticamente curada e construída, não necessariamente verdadeira. Buscar se descobrir a
partir da experimentação real, da vivência e trocas com pessoas reais, sem a mediação do
olhar e da aprovação digital, parece ser uma maneira de minimizar estes efeitos. Além disso,
há uma tendência de retorno aos “hobbies analógicos”, que retomam hábitos de escrita em
diários, prática de colagens, leituras, entre outros. Talvez, a partir disso, seja possível fazer
um outro caminho, desenvolvendo práticas e construção de pequenas comunidades reais com
interesses genuínos e compartilhados, que ajudem a construir uma identidade mais genuína e
autêntica. Afinal, é a partir da experimentação, dos erros e acertos, que conhecemos nossos
gostos, exploramos curiosidades e desejos.
No fim, talvez a resposta para a fragilidade da identidade na Geração Z não esteja em
encontrar uma versão única e definitiva de si mesma, algo já apontado por Bauman como
impossível na modernidade líquida, mas em cultivar a coragem de existir também fora das
vitrines. A autenticidade, ou o mais alcançável disso nos tempos atuais, talvez não seja
encontrada em um perfil bem curados e com estéticas bem executadas, mas nas revoltas
provocadas pelo cotidiano, nos gostos influenciados pelos amigos, por familiares, pelas
descobertas feitas em momentos de confusão, e, principalmente, pela aceitação radical de
suas próprias contradições e faltas.